12 novembro 2013

O criador de mascotes

Luzardo Alves, aos 81 anos, continua trabalhando como chargista
Aos 81 anos, Luzardo Alves continua desenhando
Grande ou pequeno, todo time de futebol tem um mascote. Na maioria das vezes um animal, mas também santos e outros personagens. É assim com o Flamengo (Urubu), com o Corinthians (Mosqueteiro), com o Manchester United (Fred, um diabinho vermelho), com o Barcelona (o Avô do Barça) e outros clubes do Brasil e do exterior

Mas qual o mascote do Botafogo? E do Auto Esporte? Quem os criou? Pouca gente deve lembrar, porém tanto o cachorro (Botafogo) quanto o macaco (Auto) foram criados pela mesma pessoa: o chargista Luzardo Alves, que na época, em 1973, trabalhava no extinto jornal “O Norte”. E além de serem ‘filhos’ do mesmo pai, os dois nasceram na mesma época, primeiro o cachorro, depois o macaco.

Quando foram criados, os dois fizeram sucesso e rapidamente foram “adotados” pela crônica esportiva, pelas torcidas e pelos clubes, a exceção de um ou outro dirigente ou torcedor. A dupla ficou nas páginas do jornal por quase dez anos, dividindo uma página com o galo e a raposa – mascotes de Treze e Campinense, que já existiam – até que Luzardo deixou o jornal.

Mas com o tempo os nomes 'Botinha, o xerife do Nordeste', e 'Macaco Altino' foram sendo cada vez menos usados e praticamente caíram no esquecimento. Hoje o Botafogo é também conhecido pelo apelido de Belo, nome que jamais agradou ao artista. “O nome Botinha ainda foi usado por um tempo, mas hoje a maioria chama de Belo. Poucos, também, chamam o Auto de Macaco Altino”, desabafa.

O criador não esconde sua vontade de ver novamente os dois principais times da Capital serem identificados pelo nome dos mascotes. “Gostaria de ver meus personagens sendo usados novamente. Que pelo menos voltasse a se falar no Botinha e no macaco Altino, até porque foram conhecidos antes, mas hoje as pessoas não sabem nem quem criou esses personagens”, afirma o chargista.

Botinha, o Xerife do Nordeste

De acordo com Luzardo, o xerife Botinha, surgiu por causa de um cachorro. Embora não seja torcedor do Belo, o chargista tem certa simpatia pelo time. “Eu tinha um cachorrinho branco que se chamava Botinha, em homenagem ao time. Não era igual ao mascote, era pequeno. Eu criei uma da minha maneira, pensando em homenagear tanto meu cachorro como o clube”, explica.

Embora seja torcedor do Vasco da Gama, Luzardo Alves acompanhava o futebol paraibano com interesse, não só por dever profissional – já que tinha sua página no jornal com os clubes da Paraíba –, mas porque torcia pelo sucesso das equipes do estado. "Naquele tempo, final da década de 60 e início dos anos de 70, o Botafogo tinha um bom time", relembra, ressaltando que a equipe atual também é muito boa.

E nasce o Macaco Altino

Depois de criar o xerife Botinha, Luzardo decidiu homenagear também o outro time de João Pessoa, o Auto Esporte. "Eu pensei em criar um mascote para o time, que é nasceu como time de motorista de táxi. E fiz o macaco, que todo  carro tem. Mas por causa desse macaco, eu quase apanho. Embora a maioria tenha entendido que minha intenção foi fazer uma homenagem ao clube, muitas gente não gostou", conta o artista.

"Eu fui convidado para uma festa na sede do clube, que ficava na Rua Duque de Caxias. Eles me deram uma medalha – que eu tenho até hoje – em agradecimento pela criação do mascote. Lá pelas tantas, um daqueles sujeitos que não gostaram do desenho, gritou ‘por que você fez um macaco para o nosso grande time?’ Aí começou o ruído. Um barulho danado", conta.

Segundo o chargista, essa foi também a oportunidade para esclarecer de uma vez por todas o porquê do macaco como mascote do Alvirrubro. "Eu respondi que explicaria facilmente o motivo. E perguntei a ele o que era necessário para trocar o pneu de um carro. Então alguém gritou: 'o macaco'. Assim eu consegui fazer com ele entendesse a minha ideia", relembra.

O autor

Luzardo Alves nasceu em João Pessoa, em 1932, e começou a desenhar aos oito anos. Aos 15 começou a trabalhar como encadernador no jornal “A União”, no qual de vez em quando fazia alguns desenhos a pedido do gerente. Nessa época ele criou um personagem chamado O Sapo de Orós. Ainda na Capital ele trabalhou como camelô e gravador de objetos.

Na década de 60 ele trabalhava na TV Jornal do Comércio, no Recife, fazendo desenhos ao vivo. Mas deixou a capital pernambucana e foi morar no Rio de Janeiro, contratado por Assis Chateaubriand para ilustrar a revista "O Cruzeiro", a mais importante do Brasil na época. Lá ele conheceu Henfil, Jaguar, Millôr Fernandes e Ziraldo – padrinho de um dos seus filhos.

Porém, o paraibano jamais se habituaria à Cidade Maravilhosa e seis anos depois voltou para João Pessoa. Aqui ele continuou fazendo o que mais gostava: as tiras nos jornais. Voltou direto para “O Norte”, mas ainda atuaria no semanário “Edição Extra”, que teve vida curta, quando fez a Bat-Madame, junto com Anco, que escrevia os textos e ele os desenhos. Trabalhou também em “O Momento” e na Rádio Tabajara.

Em 2002 ele lançou o livro O Humor Gráfico de Luzardo Alves, pela editora Marca de Fantasia, uma edição de 52 páginas organizada por Henrique Magalhães, que reúne alguns de seus trabalhos – desenhos da Bat-Madame, charges publicadas em “O Cruzeiro” e outras ilustrações. Aos 81 anos Luzardo Alves continua produzindo e suas charges podem ser vistas diariamente na página 2 do JÁ. 

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