10 setembro 2013

Notícias de um escândalo


Lucas Figueiredo destrinchou o Esquema PC

Após os 21 anos de ditadura militar e os cinco anos do governo Sarney, período em que o povo não teve direito de votar para presidente da República, os brasileiros foram às urnas em 1989 e elegeram Fernando Collor de Mello para a presidência. No entanto, ele não completaria seu mandato. Os escândalos no Governo Federal fizeram com que ele fosse destituído do cargo pelo Senado, no único caso de impeachment da história do país.

Passados mais de 20 anos do afastamento do presidente e 17 da morte de Paulo César Farias, o PC, tesoureiro de campanha de Collor, que montou um grande esquema de tráfico de influência – que ficou conhecido como Esquema PC – o caso volta aser lembrado – e contado com detalhes – na terceira edição do livro Morcegos Negros (Record, 420 páginas, R$ 44), do jornalista Lucas Figueiredo.

Na primeira edição do livro, em 2000, o jornalista mineiro revelou em detalhes a relação financeira do empresário alagoano com a Máfia e que as autoridades italianas haviam repassado ao Brasil informações precisasde onde estava parte do dinheiro que PC Farias tirou ilegalmente do país. Agora ele mostra que, nesses 13 anos, muita coisa aconteceu, mas quase nada mudou.

“Collor voltou à política, desta vez como aliado do PT; Augusto Farias, irmão de PC, passou a movimentar muito dinheiro; os assassinos de Paulo César e Suzana Marcolino se safaram; apesar da colaboração da Itália e da Suíça, o governo brasileiro pouco se empenhou para repatriar a fortuna do Esquema PC no exterior... Ou seja, o que há de novo é uma velha conhecida nossa: a impunidade”, diz Figueiredo.

O autor também afirma que as provas contra o Esquema PC são robustas e que, em 2006, 14 anos após o impeachment e uma década depois do assassinato de PC, ele provou que uma das contas do esquema no Uruguai continuava aberta. O jornalista lembra que, como algumas contas foram identificadas, basta seguir o caminho do dinheiro para descobrir os outros envolvidos no caso.

“Se as autoridades realmente quiserem investigar os envolvidos no Esquema PC, basta adotar o conselho da fonte que revelou o caso Watergate, que culminou com a queda do presidente norte-americano Richard Nixon: follow the Money (siga o dinheiro). Na altura do campeonato, todos os crimes já estão prescritos, mas revelar a verdade teria um caráter pedagógico”, afirma. 

De acordo com o autor, outra novidade da nova edição de Morcegos Negros diz respeito à morte do casal Paulo César Farias- Suzana Marcolino, em junho de 1996. “Eu disseco como foi a construção da impunidade no caso da morte de PC e Suzana. A absolvição dos seguranças de PC era “pule de dez”, ou seja, um acontecimento previsível. No livro, mostro o porquê”, conta.

Lucas Figueiredo nunca deixou de pesquisar o Esquema PC. Ele vasculhou documentos sigilosos na Itália, na Suíça, nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai e no Brasil, o jornalista teve acesso a dados referentes às movimentações financeiras entre Paulo César e mafiosos italianos pertencentes a uma das maiores redes internacionais de narcotráfico.

Nesta edição, o jornalista relata o que passou nesse período. “Eu conto o que passei nesses 17 anos de investigação. Algumas coisas pesadas, como a ameaça de morte em Alagoas e a perseguição judicial kafkiana que sofri, também em Alagoas, que fez de mim um condenado no caso PC Farias. Mas conto também algumas passagens que hoje me fazem rir, como os dias em convivi com uma família de mafiosos da N’drangheta  no sul da Itália”, revela.

O autor – Mineiro de Belo Horizonte, Lucas Figueiredo é pesquisador da Comissão Nacional da Verdade, investigando casos de violação de direitos humanos ocorridos na ditadura civil-militar, e consultor da Unesco. Entre os mais de vinte meios que veicularam suas reportagens, estão Folha de S.Paulo, rádio BBC de Londres e revista DéfisSud (Bélgica). Recebeu três vezes o Prêmio Esso, duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog, além dos Prêmios Jabuti, Imprensa Embratel e Folha de S. Paulo. É autor de outros quatro livros reportagem: Ministério do Silêncio – A história do serviço secreto de Washington Luís a Lula (2005), O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (2006), Olho por Olho – Os livros secretos da ditadura (2009) e Boa Ventura – A corrido do ouro no Brasil (2011), todos publicados pela Editora Record.

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