Duas ruas, mil charges
Em 1987, o cidadão Régis Soares decidiu fazer um protesto para chamar a atenção das autoridades que cuidavam da cidade. Havia, na rua onde trabalhava, um buraco grande que prejudicava a todos que passavam por lá. Ele não fez passeata nem greve de fome. Colocou um painel com uma charge na esquina das ruas Etelvina Macedo de Mendonça com a Barão da Passagem, onde até hoje funciona seu ateliê.
Não poderia ter feito protesto melhor. A charge fez sucesso de imediato, agradando aos vizinhos e outras pessoas que passavam pelo local. Mas não sensibilizou a quem deveria, as autoridades, e o buraco permaneceu aberto por quatro anos. Vinte e um anos e mil charges depois, seus trabalhos fazem parte do cotidiano da cidade e são referência no bairro da Torre.
Régis Soares se tornou, ao longo desse tempo, uma espécie de cronista que retrata o cotidiano do Brasil através das charges, abordando fatos da política, do futebol, televisão e outros assuntos que repercutem no país e no estado. Pelos seus painéis passaram os ex-presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e agora o presidente Lula, além dos políticos do estado.
Segundo o chargista, a população respeita seu trabalho. Ele nunca teve um trabalho pichado. Mas já enfrentou problemas com pessoas que não gostaram das críticas que fez. Logo quando começou a fazer as charges, um secretário que passava pelo local destruiu um painel porque não gostou da charge. E voltou a enfrentar o mesmo problema em 2006, quando destruíram uma charge que criticava o presidente Lula.
Engana-se quem pensa que Isso o intimidou. Até porque ele sempre fez críticas aos políticos de todas as tendências e de todos os partidos, afinal, a política ainda é maior fonte de inspiração para os humoristas brasileiros. E como todo chargista, nada – e ninguém – está fora do alcance de seus pincéis. Nem o flamengo, time do coração, escapa às tintas do artista.
Mas como viver apenas de arte ainda é um sonho distante para a maioria dos artistas paraibanos, Régis vive de pintar faixas e cartazes. Nessas duas décadas, ele teve pouco apoio da iniciativa privada e menos ainda dos poderes públicos. Todos os livros que publicou até agora – exceto 15 anos de Charges na Rua, que teve 50% do custo patrocinado pela iniciativa privada – foram custeados pelo próprio chargista.
Paraibano de João Pessoa, Reginaldo Soares Coutinho, é chargista, cartunista e caricaturista. Começou em 1983, publicando suas charges em um jornal da capital. O trabalho chamou a atenção da academia. Primeiro inspirou o vídeo-documentário “Charges na Rua”, de Larissa Claro, Alexandre Macedo e Fábio Lopes, na época estudantes de Comunicação Social da UFPB.
Depois as charges também atraíram a atenção da professora Francineide Fernandes, do departamento de Letras da UFPB, que em sua dissertação de mestrado analisou alguns trabalhos do cartunista para mostrar como ele retrata nossas mazelas sociais. Ela estendeu sua pesquisa e vai prosseguir analisando a obra de Régis Soares no doutorado.
Régis publicou os livros Charges e Caricaturas (1993), Pintando o Sete e Desenhando os Outros (2000), Charges na Rua (2002) e 15 anos de Charges na Rua (2006), além de Álbum da Familia Baiano, uma coletânea de caricaturas das personalidades que frequentam do Bar do Baiano - ponto de encontro de poetas e jornalistas –, organizada por Ed Porto Bezerra.
1 comentários:
Oi, Juneldo! Minha primeira visita aqui e olha o que eu encontro: vestígios do ‘ Charge de Rua’! Que surpresa!
Um abraço!
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