Duas vezes com Helena - Um jogo de sedução
Bons filmes nem sempre são exibidos no circuito comercial de João Pessoa. Mas podem ser vistos em DVD. É o caso de Duas Vezes Com Helena (2001), de Mauro Farias. Com roteiro de Melanie Dimantas, baseado em conto de Paulo Emílio Salles Gomes, o filme narra, de forma sutil, um plano meticulosamente planejado e que tinha tudo para ser perfeito. O acaso fez com que a trama fosse descoberta.Resumindo, Duas Vezes Com Helena conta a história da amizade de Polydoro (Fábio Assumção) com o professor Alberto (Carlos Gregório), seu mentor. Na verdade, entre os dois se estabelece uma relação de cumplicidade e confiança absoluta. Nenhum ousaria duvidar da lealdade do outro. Até porque sem essa confiança cega a história não teria sentido.
Polydoro passa um temporada na Europa e quando retorna encontra o professor casado. Mas não conhece, de imediato, a esposa do amigo. Alberto, que ainda não tem filho – pelo menos nós ainda não fomos informados disso –, age como um pai zeloso e, achamdo que o discípulo está abatido, pede que ele faça alguns exames. Até aí tudo bem, mas isto é imprescindível para tudo o que será revelado mais adiante.
O filme tem, no início, um ritmo lento, que parece não evoluir. Mas essa calmaria é proposital e vai nos induzindo a pensar outras coisas para um possível desfecho, embora deixe uma sensação de que há algo de errado no ar, algo que de uma hora para outra vai surgir para quebrar as boas relações entre mestre e discípulo. Mas o diretor, em nenhum momento, abre mão da sutileza.
Alberto convida Polydoro para passar uns dias em uma casa no interior. Metódico, o professor consulta uma agenda e marca o dia exato para a visita do ex-aluno. Recebido por Helena (Christine Fernandes) – ela ainda não havia aparecido fisicamente no filme –, que comunica a ausência do marido, nem de longe Polydoro suspeita que ausência do amigo faz parte de um plano.
É nesse ambiente que se dá a traição, ou melhor, o jogo de sedução habilmente conduzido por Helena, que prepara os pratos preferidos do convidado, tem sempre à mão as bebidas que mais o agradam, e, embora não olhe Polydoro nos olhos, lança sorrisos que o encantam. É ela também quem toma a iniciativa do beijo, quando já sabe que ele não esboçaria qualquer reação contrária.
Aliás, jogo é uma palavra chave para entendermos Duas Vezes com Helena. O diretor Mauro Farias propõe ao público um jogo que, montado aos poucos como um quebra-cabeça, precisa ser desmontado cuidadosamente para que se chegue à solução ou ao resultado que justifique o próprio filme. No entanto, ele dá pistas que, se seguidas pelo espectador, não apontarão para a verdade.
Segundo longa-metragem de Mauro Farias, que havia realizado a comédia Não Quero Falar Sobre Isso Agora (1989), premiado no Festival de Gramado, Duas Vezes Com Helena, não é um filme de paixões avassaladoras, suspenses de tirar o fôlego ou coisas do gênero. Ao contrário disso, o cineasta conseguiu imprimir o ritmo e o tempo certos para a trama. Pode não ser um grande filme, mas precisa ser visto.