26 novembro 2013

A escrita indomável de Políbio Alves

Políbio Alves aborda encontros e desencontros
em Os Objetos Indomáveis, seu quarto livro de poesia
Políbio Alves é um operário da palavra. Além de leitor voraz, que está sempre lendo – ou relendo – alguma obra de autores e assuntos diversos. Poeta e ficcionista, ele escreve e reescreve dezenas de vezes cada texto. Assim foi com Os Objetos Indomáveis (Mídia, 165 páginas), seu novo livro de poesia, que após sete anos sendo escrito, lançado recentemente na sede da Academia Paraibana de Letras.

Embora lembre um poema longo, a exemplo de seu livro mais conhecido Varadouro – lançado em 1989 com recursos próprios, após dez anos de batalha em busca de meios para publicar –, Os Objetos Indomáveis traz vários poemas que dão ênfase aos antagonismos como amor e desamor, bem e mal, encontros e desencontros etc. Ele define a obra como uma casa e seus aposentos.

O livro, dividido em duas partes, ‘Mosaico’ e ‘Quartzo’, traz uma apresentação escrita por João Adalberto Campato Júnior, pós-doutor em teoria literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e dois textos críticos assinados pela poetisa e jornalista Lourdes Sarmento e pelo poeta e crítico literário Brasigóis Felício. Mas o autor decidiu deixar as orelhas em branco.

Os Objetos Indomáveis chega oito anos após Passagem Branca (2005). E essa pausaprolongada, nas palavras do autor, deve-se à dificuldade em escrever. “Eu passei sete anos escrevendo esse livro. Todo dia eu lia alguns textos e, a cada leitura eu sentia que dava para melhorar. Então jogava fora e reescrevia. Não porque sou perfeccionista, mas por perceber que não estava bom”, explica o poeta.

Dificuldade ou perfeccionismo, certo mesmo é que esse constante ‘mexer’ nos textos faz com que seu exercício diário seja intenso. Ele reescreve tanto seus poemas, que passou de 500 páginas para chegar às 165 de Os Objetos Indomáveis. “Eu refaço cada texto diversas vezes. Não tenho pressa em publicar, só não quero publicar uma obra que não me agrade. Meus trabalhos têm muito mais transpiração do que inspiração”, revela.

Políbio Alves entrega-se de corpo e alma ao ofício de escrever. Para ele, o convívio diário com a literatura é um exercício prazeroso e necessário, por isso se deixa levar pelas palavras que vão brotando no papel. E papel aqui não é modo de dizer, já que ele continua escrevendo à mão e só depois,quando dá por finalizado o trabalho –e isso pode levar anos –, alguém digita e armazena no computador.

Em relação ao processo criativo, o escritor afirma que não planeja muito o livro. A ideia surge e ele se entrega à tarefa de transformá-la em poesia ou prosa, ainda sem saber o que será. “Eu começo a escrever um livro, mas não defino como nem quantos serão os poemas ou contos da obra. São os ‘demônios’ que tenho dentro de mim que me dizem o que fazer. Eu escrevo para tentar domá-los”, afirma.

12 novembro 2013

O criador de mascotes

Luzardo Alves, aos 81 anos, continua trabalhando como chargista
Aos 81 anos, Luzardo Alves continua desenhando
Grande ou pequeno, todo time de futebol tem um mascote. Na maioria das vezes um animal, mas também santos e outros personagens. É assim com o Flamengo (Urubu), com o Corinthians (Mosqueteiro), com o Manchester United (Fred, um diabinho vermelho), com o Barcelona (o Avô do Barça) e outros clubes do Brasil e do exterior

Mas qual o mascote do Botafogo? E do Auto Esporte? Quem os criou? Pouca gente deve lembrar, porém tanto o cachorro (Botafogo) quanto o macaco (Auto) foram criados pela mesma pessoa: o chargista Luzardo Alves, que na época, em 1973, trabalhava no extinto jornal “O Norte”. E além de serem ‘filhos’ do mesmo pai, os dois nasceram na mesma época, primeiro o cachorro, depois o macaco.

Quando foram criados, os dois fizeram sucesso e rapidamente foram “adotados” pela crônica esportiva, pelas torcidas e pelos clubes, a exceção de um ou outro dirigente ou torcedor. A dupla ficou nas páginas do jornal por quase dez anos, dividindo uma página com o galo e a raposa – mascotes de Treze e Campinense, que já existiam – até que Luzardo deixou o jornal.

Mas com o tempo os nomes 'Botinha, o xerife do Nordeste', e 'Macaco Altino' foram sendo cada vez menos usados e praticamente caíram no esquecimento. Hoje o Botafogo é também conhecido pelo apelido de Belo, nome que jamais agradou ao artista. “O nome Botinha ainda foi usado por um tempo, mas hoje a maioria chama de Belo. Poucos, também, chamam o Auto de Macaco Altino”, desabafa.

O criador não esconde sua vontade de ver novamente os dois principais times da Capital serem identificados pelo nome dos mascotes. “Gostaria de ver meus personagens sendo usados novamente. Que pelo menos voltasse a se falar no Botinha e no macaco Altino, até porque foram conhecidos antes, mas hoje as pessoas não sabem nem quem criou esses personagens”, afirma o chargista.

Botinha, o Xerife do Nordeste

De acordo com Luzardo, o xerife Botinha, surgiu por causa de um cachorro. Embora não seja torcedor do Belo, o chargista tem certa simpatia pelo time. “Eu tinha um cachorrinho branco que se chamava Botinha, em homenagem ao time. Não era igual ao mascote, era pequeno. Eu criei uma da minha maneira, pensando em homenagear tanto meu cachorro como o clube”, explica.

Embora seja torcedor do Vasco da Gama, Luzardo Alves acompanhava o futebol paraibano com interesse, não só por dever profissional – já que tinha sua página no jornal com os clubes da Paraíba –, mas porque torcia pelo sucesso das equipes do estado. "Naquele tempo, final da década de 60 e início dos anos de 70, o Botafogo tinha um bom time", relembra, ressaltando que a equipe atual também é muito boa.

E nasce o Macaco Altino

Depois de criar o xerife Botinha, Luzardo decidiu homenagear também o outro time de João Pessoa, o Auto Esporte. "Eu pensei em criar um mascote para o time, que é nasceu como time de motorista de táxi. E fiz o macaco, que todo  carro tem. Mas por causa desse macaco, eu quase apanho. Embora a maioria tenha entendido que minha intenção foi fazer uma homenagem ao clube, muitas gente não gostou", conta o artista.

"Eu fui convidado para uma festa na sede do clube, que ficava na Rua Duque de Caxias. Eles me deram uma medalha – que eu tenho até hoje – em agradecimento pela criação do mascote. Lá pelas tantas, um daqueles sujeitos que não gostaram do desenho, gritou ‘por que você fez um macaco para o nosso grande time?’ Aí começou o ruído. Um barulho danado", conta.

Segundo o chargista, essa foi também a oportunidade para esclarecer de uma vez por todas o porquê do macaco como mascote do Alvirrubro. "Eu respondi que explicaria facilmente o motivo. E perguntei a ele o que era necessário para trocar o pneu de um carro. Então alguém gritou: 'o macaco'. Assim eu consegui fazer com ele entendesse a minha ideia", relembra.

O autor

Luzardo Alves nasceu em João Pessoa, em 1932, e começou a desenhar aos oito anos. Aos 15 começou a trabalhar como encadernador no jornal “A União”, no qual de vez em quando fazia alguns desenhos a pedido do gerente. Nessa época ele criou um personagem chamado O Sapo de Orós. Ainda na Capital ele trabalhou como camelô e gravador de objetos.

Na década de 60 ele trabalhava na TV Jornal do Comércio, no Recife, fazendo desenhos ao vivo. Mas deixou a capital pernambucana e foi morar no Rio de Janeiro, contratado por Assis Chateaubriand para ilustrar a revista "O Cruzeiro", a mais importante do Brasil na época. Lá ele conheceu Henfil, Jaguar, Millôr Fernandes e Ziraldo – padrinho de um dos seus filhos.

Porém, o paraibano jamais se habituaria à Cidade Maravilhosa e seis anos depois voltou para João Pessoa. Aqui ele continuou fazendo o que mais gostava: as tiras nos jornais. Voltou direto para “O Norte”, mas ainda atuaria no semanário “Edição Extra”, que teve vida curta, quando fez a Bat-Madame, junto com Anco, que escrevia os textos e ele os desenhos. Trabalhou também em “O Momento” e na Rádio Tabajara.

Em 2002 ele lançou o livro O Humor Gráfico de Luzardo Alves, pela editora Marca de Fantasia, uma edição de 52 páginas organizada por Henrique Magalhães, que reúne alguns de seus trabalhos – desenhos da Bat-Madame, charges publicadas em “O Cruzeiro” e outras ilustrações. Aos 81 anos Luzardo Alves continua produzindo e suas charges podem ser vistas diariamente na página 2 do JÁ. 

10 setembro 2013

Notícias de um escândalo


Lucas Figueiredo destrinchou o Esquema PC

Após os 21 anos de ditadura militar e os cinco anos do governo Sarney, período em que o povo não teve direito de votar para presidente da República, os brasileiros foram às urnas em 1989 e elegeram Fernando Collor de Mello para a presidência. No entanto, ele não completaria seu mandato. Os escândalos no Governo Federal fizeram com que ele fosse destituído do cargo pelo Senado, no único caso de impeachment da história do país.

Passados mais de 20 anos do afastamento do presidente e 17 da morte de Paulo César Farias, o PC, tesoureiro de campanha de Collor, que montou um grande esquema de tráfico de influência – que ficou conhecido como Esquema PC – o caso volta aser lembrado – e contado com detalhes – na terceira edição do livro Morcegos Negros (Record, 420 páginas, R$ 44), do jornalista Lucas Figueiredo.

Na primeira edição do livro, em 2000, o jornalista mineiro revelou em detalhes a relação financeira do empresário alagoano com a Máfia e que as autoridades italianas haviam repassado ao Brasil informações precisasde onde estava parte do dinheiro que PC Farias tirou ilegalmente do país. Agora ele mostra que, nesses 13 anos, muita coisa aconteceu, mas quase nada mudou.

“Collor voltou à política, desta vez como aliado do PT; Augusto Farias, irmão de PC, passou a movimentar muito dinheiro; os assassinos de Paulo César e Suzana Marcolino se safaram; apesar da colaboração da Itália e da Suíça, o governo brasileiro pouco se empenhou para repatriar a fortuna do Esquema PC no exterior... Ou seja, o que há de novo é uma velha conhecida nossa: a impunidade”, diz Figueiredo.

O autor também afirma que as provas contra o Esquema PC são robustas e que, em 2006, 14 anos após o impeachment e uma década depois do assassinato de PC, ele provou que uma das contas do esquema no Uruguai continuava aberta. O jornalista lembra que, como algumas contas foram identificadas, basta seguir o caminho do dinheiro para descobrir os outros envolvidos no caso.

“Se as autoridades realmente quiserem investigar os envolvidos no Esquema PC, basta adotar o conselho da fonte que revelou o caso Watergate, que culminou com a queda do presidente norte-americano Richard Nixon: follow the Money (siga o dinheiro). Na altura do campeonato, todos os crimes já estão prescritos, mas revelar a verdade teria um caráter pedagógico”, afirma. 

De acordo com o autor, outra novidade da nova edição de Morcegos Negros diz respeito à morte do casal Paulo César Farias- Suzana Marcolino, em junho de 1996. “Eu disseco como foi a construção da impunidade no caso da morte de PC e Suzana. A absolvição dos seguranças de PC era “pule de dez”, ou seja, um acontecimento previsível. No livro, mostro o porquê”, conta.

Lucas Figueiredo nunca deixou de pesquisar o Esquema PC. Ele vasculhou documentos sigilosos na Itália, na Suíça, nos Estados Unidos, na Argentina, no Uruguai e no Brasil, o jornalista teve acesso a dados referentes às movimentações financeiras entre Paulo César e mafiosos italianos pertencentes a uma das maiores redes internacionais de narcotráfico.

Nesta edição, o jornalista relata o que passou nesse período. “Eu conto o que passei nesses 17 anos de investigação. Algumas coisas pesadas, como a ameaça de morte em Alagoas e a perseguição judicial kafkiana que sofri, também em Alagoas, que fez de mim um condenado no caso PC Farias. Mas conto também algumas passagens que hoje me fazem rir, como os dias em convivi com uma família de mafiosos da N’drangheta  no sul da Itália”, revela.

O autor – Mineiro de Belo Horizonte, Lucas Figueiredo é pesquisador da Comissão Nacional da Verdade, investigando casos de violação de direitos humanos ocorridos na ditadura civil-militar, e consultor da Unesco. Entre os mais de vinte meios que veicularam suas reportagens, estão Folha de S.Paulo, rádio BBC de Londres e revista DéfisSud (Bélgica). Recebeu três vezes o Prêmio Esso, duas vezes o Prêmio Vladimir Herzog, além dos Prêmios Jabuti, Imprensa Embratel e Folha de S. Paulo. É autor de outros quatro livros reportagem: Ministério do Silêncio – A história do serviço secreto de Washington Luís a Lula (2005), O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (2006), Olho por Olho – Os livros secretos da ditadura (2009) e Boa Ventura – A corrido do ouro no Brasil (2011), todos publicados pela Editora Record.

16 agosto 2013

À luz da palavra

A paulista Mariana Ianelli é autora de sete livros de poesia
Mariana Ianelli convive com a palavra desde muito cedo. Autora de sete livros de poesia – lançou o primeiro aos 20 anos –, escrevia crônicas sem muito compromisso. Até que passou a escrevê-las para o site ‘Vida Breve’. É parte desses textos, publicados entre 2010 e 2011, que está em Breves Anotações Sobre um Tigre (Ardotempo, 112 páginas, R$ 30), com prefácio de Ignácio de Loyola Brandão, orelha de Luís Henrique Pellanda e ilustrações do artista plástico Alfredo Aquino.

De acordo com Mariana, a ideia de transformar em livro os textos publicados no site foi uma forma de recuperar as crônicas mais antigas. “O site mantém um cronista e um ilustrador diferentes para cada dia da semana, de segunda a sábado, o que dá uma vitalidade muito grande à página, por outro lado, o acesso a textos antigos fica mais difícil. Por isso resolvi reunir as crônicas, para que não se perdessem. Também levei para o livro a ideia das ilustrações, porque os desenhos casam muito bem com os textos”, conta a autora.

Como todo cronista, Mariana é uma observadora atenta do cotidiano da cidade onde mora e do país. Isso, no entanto, não significa que seus textos sejam obrigatoriamente sobre um fato de grande repercussão. A inspiração dela é mais livre e os assuntos surgem tanto do dia a dia como de algo pessoal, daquilo que por motivos diversos merece o olhar da autora, que retrata datas comemorativas, histórias de santos e mártires, cartas de amigos, livros, filmes e músicas.

“Os temas vêm um pouco do calor da circunstância e também de alguma motivação pessoal. Há uma crônica, por exemplo, que fala sobre a erupção do Etna, que na época era uma das notícias dos jornais, outro texto fala do aniversário de morte da poeta Sophia de Mello Andresen, e há crônicas sobre temas que sempre me inquietam ou me encantam, como a solidão da avó, a generosidade em tempos de individualismo, a interdição da suástica, o ateísmo”, revela.

Com sete livros de poesia publicados, Mariana Ianelli é uma autora premiada e se sentiu instigada com a redescoberta da crônica. No entanto, esse mergulho na prosa não a afastou da poesia. “A poesia exige um tempo de depuração, é um processo mais lento, um trabalho ao nível da minúcia. Quem entra num poema geralmente entra nessa dimensão de maior resguardo. A crônica pede mais agilidade, a sensação de uma conversa, é um gênero, digamos, menos noturno”, explica.

De fato, alguns textos presentes em Breves Anotações Sobre um Tigre mostram a proximidade – ou diálogo – com a poesia. A própria autora afirma que os terxtos escritos para o site estão recheados de poesia. “Sinto a poesia muito presente na crônica, no ritmo, nas imagens, nas associações inesperadas. Existem crônicas no livro que escondem poemas, como ‘Carta para o amigo’, ‘Ausentes da festa’, ‘Ninguém mais senão eu comigo no escuro’”, exemplifica.

Mas Mariana não para de produzir. Ao mesmo tempo que trabalhava no livro ela já tocava outra iniciativa. “Tenho o projeto de um ensaio em que estou trabalhando desde o início deste ano. Será um texto híbrido, entre a narrativa literária e a reportagem, com fotos. É um projeto que surgiu da leitura das cartas de Etty Hillesum e acabou me envolvendo tanto que em março viajei até a Holanda. Agora é hora de reunir o material e começar a trabalhar”, revela.

A autora – Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Poeta, mestre em Literatura e Crítica Literária, é autora dos livros Trajetória de Antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005), Almádena (2007), Treva Alvorada (2010) e O Amor e Depois (2012), todos pela Editora Iluminuras. Foi ganhadora do Prêmio Bunge de Literatura (categoria Juventude), Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, e finalista do Prêmio Prime Bravo! de Literatura.

12 junho 2013

Sérgio Couto e os mistérios do Vaticano


O Vaticano, símbolo do poder da Igreja Católica, abriga mistérios que instigam pesquisadores, alimentam a imaginação de artistas – que o digam a literatura e o cinema – e atiçam a curiosidade de muita gente. Mais de dois milhões de documentos estão guardados no maior acervo religioso do mundo, conforme relata o jornalista Sérgio Pereira Couto em Os Arquivos Secretos do Vaticano (Gutenberg, 200 páginas, R$ 29,90).

Esse acervo consta de livros proibidos, correspondências, diários de papas, documentos, processos da Inquisição, papéis confidenciais e milhares de outros registros que a Igreja Católica acumulou ao longo dos séculos em sua luta na defesa da fé cristã e estão trancados no local conhecido como Arquivos Secretos do Vaticano, que fica, evidemente, dentro do próprio Vaticano.
 
Porém nem todos os documentos estão guardados a sete chaves. Parte dessesregistros está aberta ao público, mas claroque só uma pequena parte, pois a maioria permanece trancada e ainda desconhecida. Foi isso que instigou Sérgio Pereira Couto, jornalista e escritor apaixonado pelos mistérios da história humana, a escrever Os Arquivos Secretos do Vaticano.

De acordo com Couto, o livro surgiu da ideia de desvendar os tais arquivos secretos. “Na verdade pensei em realizar uma pesquisa mais profunda para esclarecer o que eram os Arquivos Secretos, coisa que nenhum livro que li até hoje soube esclarecer. Comecei a falar com vaticanólogos e com pessoas que estiveram nos arquivos e comecei a coletar suas informações e a cruzar com o que já se sabia sobre o local”, conta o autor.

O jornalista discorre sobre a história deste “museu cristão”, incluindo os detalhes de sua criação e formação, a Bíblia original e suas alterações. A obra também aborda a Inquisição e suas heresias, além de evangelhos proibidos, mistérios, polêmicas e segredos, inclusive relacionados à renúncia do papa Bento XVI. No entanto, ele não tenta esclarecer a verdade, mas apontar um caminho para o leitor chegar às suas conclusões.

“O livro traz um apanhado do que seriam as principais causas, dos casos de pedofilia aos escândalos financeiros que envolvem o Instituto de Obras do Vaticano, passando pela existência de uma espécie de círculo que concentra o poder da informação no Vaticano (a Cúria Romana) e osconflitos com o atual secretário daquele pequenopaís, Tarcísio Bertone”, explica Couto.

Mas qual o conteúdo dos documentos confiscados? Segundo o autor, são todos importantíssimos. “Os livros confiscados são, em sua maioria, de alto valor histórico, como o Pergaminho de Chinon, que provou que Clemente V havia declarado os Templários inocentes das acusações de heresia, uma cópia da carta de Henrique VIII pedindo a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão”, revela o jornalista.

Ele diz ainda que entre os documentos consta uma carta de Abraham Lincoln explicando os ideais da guerra civil, que foi reconhecido pelo papa de então como presidente dos Estados Unidos quando Lincoln ainda não havia assumido o cargo, e que há, também, cópias apreendidas pela Inquisição de evangelhos gnósticos, apócrifos, cópias de estudos bíblicos que teriam originado o Código da Bíblia, entre outros documentos.

02 junho 2013

O lado risível do medo



André Ricardo Aguiar já era um poeta reconhecido quando, há 13 anos, enveredou pela literatura infantil com O Rato que Roeu o Rei (prosa), vencedor do Prêmio Novos Autores Paraibanos, promovido pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Depois de Pequenas Reinações – publicado este ano –, ele volta com Chá de Sumiço e Outros Poemas Assombrados (Autêntica, 32 páginas, R$ 29,00), com ilustrações de Luyse Costa.

No livro, ele traz 25 poemas lúdicos e bem-humorados – ou brincadeiras poéticas –, que tem como personagens Frankenstein, vampiros, morcegos e almas penadas, mas retratados de uma forma mais amena, envolvidos com seus problemas do dia-a-dia, mostrando que, apesar de criaturas assustadoras, eles têm algo em comum com os seres humanos.

De acordo com André Ricardo Aguiar, que vem se dedicando há algum tempo a escrever para crianças, com os livros O Rato que Roeu o Rei, que também foi publicado pela Rocco em 2007, Pequenas Reinações (Girafinha, 64 páginas, 2013) – os dois em prosa – era de se esperar que a poesia, gênero no qual começou, chegasse também aos seus projetos voltados para o público infantil.

“Foi uma consequência natural que eu acabasse criando poemas para o público infantil, pois sempre achei que este gênero tem características mais palpáveis para estes leitores especiais: os ritmos, os jogos de linguagem e a musicalidade estão mais em relevo. Então achei que funcionasse. Trago, também, minha experiência de leitor aqui, pois sou muito fã dos poemas divertidos do José Paulo Paes”, explica.

A ideia do livro, segundo o autor, surgiu de uma sugestão de uma amiga, a escritora Rosa Amanda Strausz, que disse para ele tentar algo ligado ao medo. “Achei apropriado, pois estava querendo escrever algo diferente e me peguei pensando que muito da minha formação veio da experiência do interior e de como eu gostava de contar histórias inventadas para fazer medo”, conta.

A motivação também veio da possibilidade de poder fazer comque personagens feitos para assustarpudessem ser vistos de uma forma diferente. “Achei que seria uma boa sacada pegar os arquétipos do medo e botar em outro contexto, fazer com que crianças sempre olhem o lado risível, lúdico, positivo destas coisas. Eu sempre me coloco no lugar deles e penso que sempre gostaria de comprar um livrinho assim”, revela.

E como esses personagens aparecem em Chá de Sumiço? Em situações diferentes, mas todas trabalhadas com certo humor, sem a carga do medo. “O fantasminha mal saiu das fraldas e já levando bronca do fantasma pai: – Cresça e desapareça!”, conta o poeta em ‘De pai para filho’, um dos poemas do livro, em que evidencia o tratamento lúdico dado às criaturas conhecidas por serem assustadoras.

30 maio 2013

Uma batalha decisiva



Pouco conhecida na atualidade, a Batalha de Varsóvia, que ocorreu após a Primeira Guerra Mundial, foi uma das mais importantes do Século XX, e poderia ter mudado os rumos da história. Esse evento – comparado em impoortânc ia a Waterloo – é reconstuído com detalhes no livro Varsóvia 1920A Derrota de Lênin (208 páginas, R$ 34,90), de Adam Zamoyski, com tradução de Roberto Alexandre Gray.

Em 1920, quando a o novo estado Soviético, desmembrado, dividido por disputas políticas internas e enfrentando uma guerra civil, buscava a qualquer custo a sobrevivência do regime comunista, vislumbrou como saída a expansão da Revolução Bolchevique, fazendo com que chegasse até a Alemanha, arruinada economicamente após o conflito mundial, e de lá se espalhasse por outros países da Europa ocidental.

Os soviéticos – então sob à liderança de Lenin – não acreditavam que a Polônia, que acabara de recuperar sua independência depois de mais de cem anos de opressão, portanto vulnerável, pudesse ser um empecilho para suas tropas. O líder comunista estaca certo de que o governo da Polônia, assim como qualquer governo burguês, não teria condições de "resistir à força do bolchevismo", conforme assinala o autor.

Não contavam, entretanto, com a tenacidade dos poloneses. Em uma batalha travada às portas de Varsóvia, o exército local, liderado por Józef Pilsudski, reagrupou-se e conseguiu vencer o poderio militar comunista. O episódio, conhecido como “milagre do Vístula”, assegurou quase duas décadas de paz na Europa, que anos depois voltaria a enfrentar os horrores de uma guerra.

O historiador norte-americano se vale de fontes preciosas e mostra que, devido à situação da Polônia na época, onde milhares de pessoas haviam morrido do fome, e milhões ainda passavam necessidades, o país dependia muito dos seus aliados ocidentais, tanto para aquisição de mantimentos, quanto para balas de metralhadoras. O problema é que esses aliados não podiam dar auxilio militar, caso isso fosse solicitado.

Em Varsóvia 1920, Zamoyski deixa claro que a França e a Inglaterra agiram de forma dúbia. Publicamente, os representes dos dois países, George Clemenceau e Lloyd George, adotaram discursos pacifistas, enquanto outros membros do governo britântico e do Estado-Maior francês, enviavam mensagens belicosas. Isto, segindo o autor, é mais explícito quando Alexandre Millerand se tornou primeiro-ministro da França