DEFINIDA nos dicionários como “faculdade de reter as ideias, impressões e conhecimentos adquiridos anteriormente”, a memória, no sentido de preservação, tem importância fundamental para a humanidade. Antítese da morte, na mitologia grega ela aparece personificada pela deusa Mnemósine – filha de Urano e Gaia e mãe das nove musas –, divindade que protege dos perigos do esquecimento.
De certa forma, essa luta contra o esquecimento move o artista plástico José Rufino, para quem a memória é matéria viva e inesgotável. Para ele a memória individual não basta, por isso muitas vezes se apodera das memórias familiares – seja de pessoas, de locais ou de objetos –, das quais nasceram seis instalações e uma série de desenhos. Dessa mesma fonte ele bebeu para escrever o romance Desviver, sua estreia na literatura, que deve ser lançado ainda este ano.
Para Rufino há sempre uma porta aberta que o leva ao passado e lhe permite interferir na história individual das coisas. “É como se eu tivesse criado uma ferramenta para voltar a esses passados e, de alguma forma, remendá-los, subvertê-los, corrigir determinadas questões, se isso for possível, como se eu não me contentasse apenas com a memória e precisasse refazer os vários formatos de passado tanto do ponto de vista pessoal, como social e político”, explica.
Esses retornos ao passado são constantes na sua obra, seja usando as memórias – suas ou de terceiros – ou se apropriando de objetos familiares de forma a reescrever a trajetória de cada um deles. “É como se eu lutasse contra o historicismo ou a maneira convencional de fazer História. Disparo contra a História e termino caindo na História da Arte. Mas esse meu desespero de retomar o passado e reescrevê-lo é também carregado de contradições, de equívocos”, diz.
Em permanente conexão com o passado, Rufino trabalha atualmente em uma obra que envolve a busca e aquisição de pinturas antigas, da época da União Soviética. A ideia, segundo ele, é rever as formas de representação de ícones ideológicos. Algumas dessas pinturas já estão no ateliê do artista, que também prepara exposição para abertura da temporada de ocupação da galeria da Usina Cultural Energisa, em João Pessoa.
Reencontro com a literatura
O romance Desviver é um reencontro de José Rufino com a literatura, área em que já teve uma breve experiência antes de se tornar artista plástico. No começo dos anos 1980, quando estudava no Recife (PE), ele conheceu poetas e artistas multimídias, como Jommard Muniz de Britto, e aumentou seu interesse pela poesia, que chegou a publicar no ambiente universitário. Depois passou à poesia visual, que já era uma estruturação das palavras ligadas às artes visuais.
A sua produção nas artes plásticas sempre esteve, de alguma forma, ligada à literatura. Da arte postal ele passou para desenhos em um conjunto de envelopes e cartas de família, que resultou numa série chamada Cartas de Areia. “A minha obra como artista plástico sempre tem o texto como substrato. Eu também utilizo fragmentos de textos escritos. Paralelamente, eu sempre escrevi textos que eram complementos à minha produção em arte”, explica.
No ano 2000, Rufino recebeu uma bolsa da Fundação Vitae para escrever textos de memória de lugares da infância e desenhar vinte desses lugares, num projeto que chamou de Topologias Aleatórias. “Esse foi o primeiro exercício; fazer uma relação entre memória e esquecimento. Desviver começou nesse momento, pois foi quando comecei a experimentar uma forma de escrever que misturava uma sensação de memória com ficção”, diz.
Essa incursão de Rufino pelas letras é como a retomada de um caminho ancestral, já que, pelo lado paterno, ele é sobrinho-neto de Horácio de Almeida, e primo de José Américo de Almeida e Átila de Almeida. Além disso, o avô paterno, José Rufino, de quem tomou emprestado o nome artístico, era um homem interessado em literatura e tinha uma grande biblioteca. Pelo lado materno ele é sobrinho-neto de Oscar de Castro e primo de Ângela Bezerra de Castro.
Mas Rufino não procurou um caminho fácil para sua estreia na literatura. Preferiu se arriscar em uma narrativa não linear na qual o personagem articulador ora é o próprio autor, ora é seu avô e em determinados momentos é seu bisavô. “É como se o tempo fosse uma espécie de jaula para essa figura que narra fatos o tempo inteiro e vai debulhando ali sua história como se estivesse expurgando toda a sua vida a partir da casa grande do engenho Vaca Brava”, conta.
Ao contrário do que acontece normalmente, Rufino preferiu escrever um romance no qual o leitor não o identifica como artista plástico. “Quando um artista plástico faz um filme ou escreve um livro ele tem a preocupação muito grande de deixar claro que antes de qualquer coisa ele é um artista e não um escritor ou cineasta. Eu não tenho mais essa preocupação, perdi esse pudor. Então se sou paleontólogo ou artista isso não importa mais”, afirma.
De acordo com Rufino, o livro Desviver já está pronto e já tem uma editora interessada em publicá-lo, mas antes ele precisa fazer uma imersão no texto para ‘limpá-lo’, pois tem uma linguagem muito intrincada. “O livro tem que ser lançado ainda este ano. Até porque se cria uma expectativa e eu já tive uma bolsa de produção. Eu fiz contato com uma editora pela qual o livro deve ser publicado, mas ainda é cedo e prefiro não tratar disso agora”, salienta.
Um artista em plena ascensão
José Rufino é um dos artistas plásticos mais requisitados para exposições no Brasil e no exterior, mas as atividades diárias como professor universitário ocupam grande parte do seu tempo. Por isso, o pouco que sobra é precioso e ele usa para produzir e organizar os trabalhos que são enviados às exposições mundo afora. E é preciso ter disciplina para que essas duas faces – a do professor-paleontólogo e a do artista plástico – não se confundam.
Mas o professor e o artista, embora sejam a mesma pessoa, são diferentes. “Enquanto artista eu tenho licenças poéticas para intervir no status quo, para intervir na natureza das coisas. Como paleontólogo eu só posso reproduzir e interpretar os fenômenos da natureza. O paleontólogo é muito mais limitado, sofre de determinadas frustrações, enquanto o artista complementa isso com direito ao devaneio”, diz.
Ser filho de Marlene Almeida, uma das artistas plásticas mais conhecidas do estado, não atrapalhou seu percurso, aconteceu exatamente o contrário. Segundo ele, o fato de ter uma artista plástica dentro de casa foi importante porque antecipou algumas etapas na carreira dele, pois do ponto de vista técnico, de conhecimento dos materiais, tudo isso ele já tinha através da mãe. E também um senso crítico já formado por ter tido contato anterior com a arte.
“Partindo da obra dela, eu já entrei no mundo da arte contemporânea, não passei por um momento anterior. Passei por isso em literatura, mas em arte o meu gosto já foi formatado para uma visualidade, digamos que já sou descendente das vanguardas do século XX, então não tive conflito para assimilar obras de artistas como Duchamp, por exemplo. Já parti desses pra frente. Já sou um artista posterior às vanguardas nacionais, inclusive não precisei dessa maturação”, assegura.
Os nomes das exposições em Latim – Aenigma, Faustus – vem do seu perfil de paleontólogo e do seu método de trabalho. “Eu sou uma pessoa um tanto programada em tudo que faço. Desde o começo eu vislumbrava uma sequência de ações e de obras que tivessem uma relação corporal. Era como se o corpo fosse o palco de tudo que ia se processar. Várias dessas obras são sensações do corpo, como respirar (Respiratio), chorar (Lacrymatio), que terminam se transformando em instalações”, explica.
“Muitas das instalações são corpos geométricos estendidos no chão, presos nas paredes. Cadeira, escrivaninha, birô, carimbo tudo isso se transforma em parte de corpo, como se eu tivesse exumando um certo corpo, como em Plasmatio, a instalação que fiz com papéis de desaparecidos políticos. Aquele não é meu corpo, mas a incorporação de um corpo coletivo, perdido inclusive. Essa é uma obra que nunca termino, que tá sempre em aberto”, complementa.
Rufino admite que sua arte não busca o conforto, prefere o incômodo. “Eu não precisava fazer esse trabalho sobre os desaparecidos, mas tenho a necessidade de ir ao ponto nevrálgico, naquilo que dói, que me provoca incômodos. Minha ideia não era fazer uma homenagem aos desaparecidos políticos e sim mostrar a memória do desaparecimento. O interesse dessa obra é a sensação de perda, esse tipo estranho de morte”, afirma.
Segundo Rufino, o processo de criação acontece em várias frentes ao mesmo tempo. “Para algumas obras o processo envolve uma pesquisa teórica ou de campo, esboços, testes de materiais e possibilidades técnicas e em outras tudo acontece mais instantaneamente, como se viessem prontas de um arquivo de possibilidades já construídas. O que costura tudo é a eterna ligação com o passado”, explica.
Conectado com o mundo
Para o artista, o fato de morar na Paraíba não impede que ninguém participe de exposições em outros estados brasileiros. Ele, por exemplo, tem exposto no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Recife e também no Chile, Estados Unidos, Inglaterra, Áustria, Alemanha etc. “Hoje com os mecanismos que a gente tem de contato com o mundo tanto faz morar aqui ou em outro lugar, por mais longínquo que seja dos grandes centros de produção de arte”, afirma.
Mas há também um ponto negativo, como a logística das exposições, pois se fizer obras muito grandes pode inviabilizar a remessa para exposições fora da cidade. “Eu tenho pensado em fazer obras aqui e no lugar onde a exposição vai acontecer. Ou então manter conjuntos de obras, por exemplo, em São Paulo, onde a galeria que me representa mantém um galpão e as obras estão lá também”, explica.
Rufino também não concorda com o lamento de muita gente que produz cultura no estado, de que não tem chance porque o governo não investe. “Acho que o governo deve investir, mas em políticas culturais. O governo deve apontar, por exemplo, no sentido de que se deixar nas mãos das empresas privadas ou de quem produz cultura de forma particular, talvez determinadas linguagens nunca cheguem ao público”, observa.
Para ele, as iniciativas do Poder Público devem ser estendidas a todas as áreas. “Acredito que do ponto de vista das artes visuais isso também deve acontecer. O governo deve apontar direções, com eventos maiores para mostrar que peça tal é arte erudita, aquela outra é arte contemporânea, porque naturalmente isso não vai aparecer, porque a arte precisa de interlocutores, de mediação, que pode ser feita pelo governo”, acrescenta.
O artista diverge da maioria em relação ao financiamento público de obras de arte. “Não acho necessariamente que o governo deve patrocinar a obra dos artistas, pra isso aí existem outros mecanismos. O circuito de arte é muito bem estabelecido hoje, ele tem os produtores, as galerias, os museus, os curadores, então todo esse circo já funciona sozinho. Quando faço uma exposição já existe o transporte, o seguro etc”, sublinha.
Rufino diz que hoje existe muitas formas de fazer o trabalho aparecer, a exemplo dos editais do Ministério da Cultura, Banco do Nordeste, Caixa Cultural, Santander, que são acessíveis também aos jovens artistas, que estão começando a carreira. Por isso aquele velho discurso “sou um grande artista, mas não apareço fora daqui por falta de condições”, para ele, não tem sentido. É preciso apenas estar atento ao lançamento dos editais.
PERFIL
José Augusto Costa de Almeida nasceu em João Pessoa (PB), filho do professor Antônio Augusto Almeida e da artista plástica Marlene Almeida. Formado em Geologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também fez o doutorado, é artista visual e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Fez cursos livres de artes na Coex/UFPB em 1977 e mudou-se para o Recife em 1983. Começou sua trajetória artística fazendo arte postal. Vencedor do 6º Prêmio Bravo de Cultura, 2010, na categoria Melhor Exposição (Faustus, no Palácio da Aclamação, Salvador, BA), expôs no Recife, Fortaleza, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e participou de mostras na Argentina, Venezuela, Cuba, Estados Unidos, Alemanha, Áustria.
Texto publicado no Correio das Artes, julho de 2011